quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um café quente, por favor. E um coração, esse pode ser frio.

"Eu tinha jurado pra mim mesmo que eu não ia cair no mesmo erro duas vezes."
Esse foi o pensamento que ecoava na minha cabeça quando eu entrei no café, tirando meu casaco e indo direto pra minha mesa cativa, lá no canto, do lado da janela. Me sentei mecanicamente, como eu sempre fazia, e a atendente veio com mesmo sorriso no rosto só pra confirmar o que eu sempre pedia.
- Capuccino grande de novo?
- Exato. - Tentei sorrir por causa da simpatia dela, mas acho que não obtive muito êxito.
Vi a garçonete partindo, meus olhos se desfocaram um pouco e voltaram ao foco segundos depois. E os pensamentos gritando na minha mente. Como eu pude ser tão masoquista ao ponto de insistir em algo que eu sabia que não daria certo? É como dizem, ninguém muda. Eu não mudo, você não muda, a atendente não muda, o cara que vai fazer meu café não muda. Ninguém muda. Triste é aquele que acha que isso pode acontecer. As mudanças são nada mais que um placebo, uma máscara que você veste num momento em que você precisa usar algo ou alguém, pra alcançar uma coisa que está além do que a sua personalidade atual pode aguentar. Daí vem a falsa "libertação", a falsa "nova era", a falsa motivação vinda de sabe-se lá onde. Mudanças tem prazo de validade. Assim que você consegue o que você quer, você volta a ser o que nunca deixou de ser. Volta a ser a mesma pessoa infame, sem vida, apática. Volta a ser a sua essência, por mais podre que seja. Enfim, ninguém muda.
Ok, ok. Eu não sou tão inocente assim. Eu sei que você nunca mudou, e que nunca mudaria. Eu sei que uma vez uma puta, você vai sempre ser uma puta. E eu também nunca tive intenção de salvar ninguém, muito menos te salvar, longe disso. Mas como eu posso lutar contra meu consciente, esse maldito que me força a acreditar em palavras doces, em futuros bonitos, em promessas plantadas em pântanos? Ainda que meu subconsciente estivesse tentando me alertar de todas as formas, ele estava sendo sufocado pelo meu consciente, que era mais forte, mais torpe, mais sórdido, mais ácido.
- Aqui, seu capuccino. - Xícara na mesa, olhar de "eu quero tanto sua atenção" no rosto da atendente.
- Ah, obrigado. - Sorriso no canto da boca, um gole.
Talvez eu tenha dado atenção ao meu consciente por ele ser como eu: forte, torpe, sórdido, ácido. E por causa disso mais uma vez meu final foi o mesmo. Sabe, eu às vezes me pergunto em mais quantos pedaços um coração pode ser quebrado. Você vai lá, cata os pedaços do chão, tenta colar tudo de uma forma bizarra, e quando a sua situação está mais ou menos resolvida, você paga de super herói e dá a cara (ou melhor, o coração) a tapa mais uma vez. E adivinha? Ele fica quebrado em mais pedaços que antes. Pedaços menores, e menores. Sendo que dessa vez, quando você for catá-los de novo pra poder remendar, alguns pedaços menores vão se perder pelo caminho. E seu coração nunca mais fica completo.
Outro gole. "Acho que meu café vai começar a esfriar."
E ficando nessa de deixar os outros brincarem de Evander Holyfield vs Mike Tyson com seu coração, você vai se debilitando. Começa a não acreditar mais nas intenções das pessoas, por melhores que elas possam parecer, começa a desconfiar de todo mundo. Começa a não ver mais gestos bonitos com os mesmos olhos que você via quando seu coração estava lá, completinho, zero bala, com um cartel de zero perdas, zero vitórias e zero empates. Depois de tanto tomar surra do mesmo oponente, você começa a perceber das duas uma: ou as pessoas superestimam o amor, ou você está indo por um caminho completamente errado.
Mais um gole. "Já está bem menos quente do que antes. Será que é por causa do frio?"
Sim, mais uma vez eu levei um golpe. Mais uma vez eu pensei que apenas a minha presença e te dizer coisas sinceras seria o bastante pra te trazer de volta. Mas agora eu vi o seu jogo: você gosta de sofrer. Você gosta de viver mentiras. Você gosta de estar num nível abaixo do que o de todas as pessoas que já apanharam muito, e tiveram o coração quebrado em minúsculos pedaços, e que agora não conseguem mais tê-los completos. Você gosta da dor. E no início eu fiquei puto comigo mesmo. Puto por ter seguido mais uma vez o caminho que eu já tinha percorrido tantas vezes, e que eu sabia que o final não era nem de longe doce. Mas isso foi só no início, só nas primeiras horas. Porque depois, eu te juro, depois eu tentei sentir qualquer coisa por você. Raiva, vergonha, decepção, angústia. Até pena. Eu te juro, eu tentei. Mas o que me deixa mais feliz comigo mesmo, e o que me faz ver cada vez mais o quando você é desprezível, é que eu me senti dormente. Não consegui sentir nada quando o seu nome veio na minha cabeça. E quando você voltar, porque eu sei que você vai voltar, acho que você já sabe qual a resposta que você vai ouvir.
"Ah, meu café esfriou."
E meus sentimentos também.

- Post originalmente escrito em 24/02/11 -