quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Divagações sobre uma analogia

Quando eu era mais nova, eu lembro que eu odiava chuva. Pra mim dias ensolarados eram tão lindos, e quando eu via alguma nuvem mais escura no céu, eu torcia por dentro pra ser uma coisa passageira e não acabar com a beleza do céu totalmente azul. E quando o tempo ficava nublado, eu ficava meio pra baixo, torcendo mais ainda pra que aquilo passasse logo, e o sol voltasse. Eu não tinha noção de que depois de um período com muito sol, sempre vinha a chuva. Pra mim os dias poderiam ser todos ensolarados.
Eu também não acreditava que coisas muito ruins aconteciam. Eu reconheço que eu criei uma espécie de utopia pra mim mesma quando eu era mais nova. Onde os dias eram sempre ensolarados, e não existia a chuva, e muito menos as coisas ruins. Não sei se era porque naquele tempo eu não precisava ter muita responsabilidade (e nem tinha, na verdade) que eu tinha essa ilusão de que com o menor esforço as coisas se encaixariam, que o que parecia começar a ficar ruim melhoraria em dois tempos. Creio que foi por eu ter sido subliminarmente criada numa redoma de vidro que essa impressão me iludia, parecendo ser eterna: tudo sempre virá fácil, só estender a mão que em dois segundos eu vou ter o que eu quero.
Nada disso.
Aí eu cresci. E passei a entender a chuva. Os dias ensolarados não tem mais tanta graça pra mim. Não que eu não goste deles, gosto e muito, mas não existe nada mais interessante do que ver o sol sendo encoberto aos poucos pelas nuvens cinzas, deixando o céu vagamente escuro, e a brisa gelada começando a correr, colidindo com o seu corpo relaxado na varanda, com uma xícara grande de café do lado e os problemas, frustrações, todos sendo levados embora pela chuva caindo à sua frente. Eu passei a ver os dias nublados com mais simpatia, e assim com a vibe da madrugada é muito mais interessante que a vibe da manhã, agora eu admito que a vibe dos dias nublados é incrivelmente melhor do que as dos dias ensolarados. É estranho, quase uma questão de me sentir mais viva, me sentir mais disposta. Eu aprendi a me sentir bem com o céu sem luz alguma, ou com pouca luz por trás das nuvens menos densas. E também aprendi a conviver bem com meus erros, com as minhas falhas. Afinal, eles são uma bagagem e tanto pras futuras vitórias. Aprendi também que nada vem fácil. E se vem fácil, vai fácil. Não há maneira melhor pra aprender a dar valor pras coisas e correr atrás delas do que batalhando, do que se privar de coisas até então julgadas grandes, mas que na verdade são pequenas se comparadas a um bem maior a ser buscado. Aprendi que as coisas boas sempre chegam, mesmo quando a espera começa a ficar cansativa, e que se empenhar e aprender a cortar perdas, definir prioridades dentre as prioridades e manter o foco pode ser o mais díficil, porém o primeiro passo pra sublimação. E, obviamente, aprendi também que as coisas ruins estão aí pra poder tentar quebrar as nossas pernas. Mas o fato é que, assim como os momentos felizes, os ruins também passam. Então o que nos resta é torcer. Torcer pra que o sol volte logo, ou dependendo da concepção, pra que as nuvens densas encubram lentamente o sol, deixando o céu vagamente escuro, e sentir a brisa gelada correr.

- Post originalmente escrito em 18/01/11 -